Monday, April 25, 2005

4.

Meu amor,

Amar alguém é sentir que na sua proximidade somos melhor. Ser-se melhor é, tantas vezes, contrário ao que nos habituámos a ser; contrário, até, ao que queremos, já que raramente nos habituamos ao que é melhor. Talvez, então, amar seja não querer ser melhor do que se é, não querer fazer a sua vida. Porque o amor tem um corpo e o desejo, o amor tem famílias e dinheiro, o amor não se tem só a si próprio. Sei que o nosso amor, isto é, o meu amor não existe senão idealmente. E um amor ideal é um amor coxo. Ninguém quer andar pela vida a coxear de amor! Vê bem que par fazemos hoje: eu coxo de amor e tu enganada de amor! Porque quem não elogia, dia a dia, a tua beleza e o teu talento só pode olhar para ti sem te ver. Não ver é enganar. Amar abre os olhos, abre o sentido dos olhos. Aprendi agora o peso do medo, do medo de uma palavra; eu que tantas vezes penso que são as palavras que têm medo de mim. Eu que faço tudo o que quero delas, faço-lhes ver o que elas são ou, pelo menos, o que elas também podem ser, para além do que pensam que são. Também nunca tive medo de uma mulher! Fiz-lhes sempre o mesmo que faço às palavras. Mas contigo não sei fazer nada, senão não saber o que fazer. Quando me tocaste, no escuro de uma noite, há tanto tempo atrás, compreendi como fui errando a minha vida. Uma conta errada, a maioria das vezes não faz chorar ninguém. Quão diferente é um sentimento errado! O que é errar no amor? O que é errar na vida? Do amor e da vida, só posso esperar o mesmo: incompreensão e sabedoria. Quem no mundo, nesta vida, poderia, em verdade, dizer-te que te ama? Só aquele que te vê e não pode nada. Aquele que tem forçosamente de esquecer-te, porque está errado na vida. Guarda esta carta, para que um dia quando amares alguém, poderes fingir que é isto que ele te diz.

O teu.

posted by Paulo José Miranda at 3:10 AM 3 comments

Monday, April 18, 2005

3.

Meu amor,

Amanhã começa o mundo. Quando regressares da viagem que fizeste pelo corpo de outro e descansares da vida que tens tido. Amanhã começa o mundo, mas hoje ainda é só a tristeza lavada e branca dos lençóis. Um animal é para ser comido e um humano para dizer adeus ao outro. Há ainda a violência de te recordar sentada ao meu lado sem mãos e sem boca, e a violência maior de contares a tua vida e a vida dos outros. Lembras-te do teu aniversário, aos 33 anos, a mítica idade de Jesus, e a luz no chão do quarto nunca se apagar de tanto ardor? Lembras-te de quando atravessava países para a tua boca? Lembras-te de como fugias da vida, de carro, para o meu amor? Mas talvez já nem lembres de como o mundo mudou! Hoje, depois do nosso desastre, tenho o coração sentado numa cadeira de rodas. Nem forças tenho para o rancor! Enfureço-me à medida de um cigarro, mais nada. Não dou a outra face de cristão, mas também não procuro a vitória sobre o outro. Enquanto espero por ti, enquanto não voltas, fecho-me em casa sozinho com qualquer corpo. Não troco só o nome dessas mulheres que esqueço, também não sei a quem pertencem a carne e os gestos que por vezes venho a lembrar: seios envergonhados na mão, uma boca que me parecia a tua comigo lá dentro ou uns dedos que me tocavam sem alma, que me tocavam por pauta, como dizíamos quando ainda não sabíamos bem o que era a música. Espero por ti desassossegadamente, torturando-me, porque as outras não sabem a nada. A cameleira do jardim está sempre a perguntar por ti e já nem sei o que lhe dizer. Trago a lenha para dentro de casa, acendo a lareira e fico com um copo na mão a ver e a ouvir as coisas a acabarem. Deixo sempre a porta aberta, não vá tu chegares e eu estar a dormir.

O teu.

posted by Paulo José Miranda at 2:53 AM 3 comments

Monday, April 11, 2005

2.

Meu amor,

Não se chega ao amor com vida. O amor é a alegria de ver uma luz ao fim do mundo e o sofrimento da sua perda. Se eu trouxesse a minha vida para este amor, não seria amor, mas um exercício de poder ou o medo que os dias encolhessem de sentido. Não se vai ao amor como quem pergunta pela vida. Para que me entendas melhor, traduzo amor por Jesus, que não era deste mundo. Lembras-te, meu amor, das dificuldades em segui-Lo? Lembras-te onde São Lucas testemunha Jesus a dizer ser preciso odiar a sua própria mãe, o seu próprio pai, a sua própria irmã e até odiar a sua própria vida, para todo aquele que quiser segui-Lo? (Verbo forte que só encontrávamos no original grego ou nas bíblias protestantes, mais fiéis ao texto.) Porque quem ama não pode deixar de querer estar continuamente com aquele que ama; quem ama não pode deixar de odiar tudo e todos os que lhe roubam tempo para o seu amor; quem ama até odeia o espaço que se entrepõe entre si e aquele que ama; quem ama só toca, só fala, ainda que balbuciando, o seu amor. Não se ama intermitentemente, amar é em horário inteiro, é o tempo todo. O amor não se cansa, quem se cansa é o corpo, quem se cansa é a vida. Mas tu chegas-me aqui ao amor com vida! Se quiseres, pensa que a vida cansa o amor; se quiseres, pensa que são os homens que cansam Jesus. Meu amor, não me interpretes mal, tu, contrariamente a mim, tens imensas qualidades! Enuncio-te apenas as mais óbvias: a elegância, a gentileza, o decoro, o bom gosto, a inteligência, a paciência e a beleza (que não depende de ti, mas também não se sabe se as outras dependem). E, de todas estas qualidades, somente a inteligência poderei partilhar contigo, como bem sabes. Tu, meu amor, és sem dúvida melhor do que eu, tens muito mais qualidade e mais qualidades. Infelizmente para mim, o que tu não tens é amor. Porque o amor não é uma qualidade, é uma crença. Para o mundo, ter qualidades é melhor do que ter amor. Mas que até agora só tenhas estado para a vida e para o mundo, não quer dizer que um dia, quem sabe, não venhas a estar para o amor. Talvez um dia o amor venha a exercer-se em ti com uma excessiva carga horária, o tempo todo. Quem sabe, meu amor, nesse dia já tenhas vontade de dizer palavras, de fazer gestos e de vires deitar-te na cama ao mesmo tempo do que eu!

O teu.

posted by Paulo José Miranda at 2:56 AM 5 comments

Monday, April 04, 2005

1.

Meu amor,

São raras as vezes que no curso de uma vida é concedido a um homem apreciar tanto uma mulher quanto eu te aprecio, mas mais raro ainda é a vida conceder-lhe a realização dessa apreciação. Muito mais raro ainda, nos dias de hoje, é um homem continuamente apreciar uma mesma mulher ao longo de inúmeros anos, ter nessa mulher a ideia da beleza ou, melhor, essa mulher representar ou despertar nesse homem a ideia de beleza (e dentro de pouco mais de um mês perfaz nove anos, apenas um ano a menos do que o tempo que Ulisses levou a chegar a casa). Assim se passa comigo, assim se tem passado comigo em relação a ti. Sempre e de cada vez que te olho, sinto a perplexidade da beleza, isto é, a violência intangível da manifestação da beleza no coração humano. Por mais que te toque, sei que nunca te toco; a beleza de que participo ao tocar-te não passa nunca para mim, nem acalma a minha dor de desconhecido que a tua beleza desperta. Resta-me, e não é pouco, a consciência de que estou próximo do que os gregos denominavam divino: um poder distante e contínuo sobre a condição humana. Pois, meu amor, és tantas vezes para mim o que uma deusa foi para eles: adorada e responsável pelas minhas paixões. Quando olho a tua pele, com a cor do espanto (responsável pelo filosofar, segundo Platão), quando olho a tua boca, com a forma do desejo, e os teus olhos de leito que se fecham comigo a pesar-te em cima, quando olho a tua figura elegante e ligeiramente melancólica como o início do Outono, da ideia do Outono, quando os teus vestidos permitem que me deleite e me perca na perfeição das tuas pernas, quando as tuas pernas ao moverem-se sublinham a luxúria das tuas nádegas e das tuas ancas sob os tecidos, quando enfim te vejo chegar, sei que não me pertenço. E com um só beijo fazes-me dizer tudo o que querias saber, tudo o que eu queria esconder. Com um só beijo teu, a língua fundo na minha boca e os teus lábios à temperatura de uma aguardente vínica junto ao fogo, sucumbo ao teu domínio como Dario sucumbiu à força de Alexandre. Mas agora sou teu escravo apenas neste tempo de distância, neste tempo em que a tua imagem é um cadáver dentro de mim e não a vida ao alcance de uma das minhas mãos, ao alcance dos meus dois lábios.

O teu.

posted by Paulo José Miranda at 10:23 PM 9 comments